
Muito se fala do vinho feito a partir da uva Malbec no Brasil, porém o que poucos sabem é que esta variedade tem como origem a França, mais especificamente sua origem se deu na região sudoeste do país onde está, a cidade do Cahors.
Essa área é uma pequena cidadela que fica a aproximadamente 200 Km de Bordeaux. Na França esta uva tem diversas denominações: a mais conhecida depois de Malbec é Côt (Bordeaux). Em Cahors se chama Auxerrois. No Medóc Malbeck e no resto da França ela é conhecida como Cahors
No começo da história da uva Malbec ela foi incorporada na tradição local e era utilizada como uma das principais 5 uvas participantes na produção dos vinhos da região de Bordeaux. No entanto, algumas mudanças importantes alteraram o curso dessa história de modo definitivo.
Em determinado período histórico, a França passou por alguns eventos climáticos e biológicos bastante característicos. O primeiro deles foi a infestação das uvas por uma praga conhecida como Phylloxera Vastatrix, um inseto que comumente acomete as uvas e que fez com que muitas plantações fossem dizimadas a partir da segunda metade do século XIX.
Depois, o frio extremo que assolou a Europa e fez com que o restante delas sofresse consequências irreparáveis na época e em 1956, logo após uma geada histórica atingir todo o país e devastar cerca de 75% das plantações, os produtores viram uma boa oportunidade para substitui-la.
No lugar da Malbec foram plantadas vinhas de Merlot, que é menos suscetível a doenças e a coulure (praga comum em épocas chuvosas, que impede a uva de brotar) e tem uma safra mais regular.
Em Cahors, no entanto, ela ainda hoje é amplamente usada na produção dos vinhos, que devem ter, no mínimo, 70% de Malbec.
Nas demais regiões do país, é plantada em baixíssima escala e não passa dos 10 ou 15% do total de hectares plantados em cada local.
Em Bordeaux, ela tem papel secundário no chamado corte bordalês, que dá prioridade a variedades como Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Petit Verdot.
Com isso, ficou bem claro que as uvas Malbec não têm uma resistência muito boa para climas extremos, sejam eles frios ou quentes. Isso fez com que, pouco a pouco, ela fosse descartada como uma das uvas indicadas para a produção na França, mas que se desse muito bem em um território bem distante: a Argentina.
Curiosamente, nessa mesma época a Argentina recebia a imigração italiana e espanhola e com a chegada de estradas de ferro e das primeiras variedades de uvas francesas, o cultivo da videira passou a se dar em duas regiões próximas da Cordilheira dos Andes: Mendoza e San Juan, que hoje respondem por mais de 80% da produção do vinho argentino.
Na Província de Mendoza que a Malbec adquire sua máxima expressão: Vale de Uco e zona alta do Rio Mendoza.
Por isso, em meados do século XIX, um grupo de produtores de vinhos da Argentina consultou especialistas franceses e questionou a possibilidade de levar a uva Malbec para esse país.
A finalidade, no início, era apenas utilizada como blend para bebidas já preparadas no país, com o objetivo de equilibrá-las e torná-las mais atraentes para o consumidor geral.
Levada para Mendoza em 1868 pelo francês engenheiro agrônomo Michel Pouget, mostra-se uma cepa versátil que pode ser misturada a outras uvas e amadurece bem sob o sol e aridez do clima platino.
Lá, há a perfeita mistura entre altitude, dias quentes e noites frias, algo que a uva Malbec adora e precisa para crescer forte e saudável. Na região, nenhum dos problemas que ocorriam normalmente na França foram observados nas plantas cultivadas.
A partir daí, a Argentina adotou a uva Malbec como a sua representante nacional.
Embora a França ainda cultive a uva, mesmo que em baixa escala, nenhum outro país do mundo conseguiu fazer com que o cultivo fosse tão próspero e de tão boa qualidade como a Argentina. Por isso, podemos dizer que a variedade Malbec realmente nasceu para ser cultivada nesse local.
Apesar de fria, a Argentina tem a perfeita combinação entre frio e altitude na medida exata para o cultivo das uvas Malbec.
Além desse fator, há nesse país a incidência exata de sol necessária para a maturação dessa uva. Afinal, nem só de temperaturas mais baixas vive uma planta tão sensível, certo?
Por isso, mesmo com origem europeia, ela fixou as suas raízes em um continente completamente diferente.
História semelhante se deu com a uva mais famosa do Chile, a da variedade Carménère, que encontrou no país andino a sua casa definitiva.
<strong>Como ocorreu o desenvolvimento da uva Malbec na Argentina?</strong>
Como pudemos observar até então, a uva Malbec teve origem em solo europeu, no sudoeste francês.
Sua proximidade com uma região tradicional de produção vinícola auxiliou no impulsionamento do cultivo dessa uva, que passou a ser utilizada em blends dos vinhos Bordeaux.
No entanto, o curso da história se alterou e, devido a algumas mudanças climáticas e problemas com pragas, a uva fixou residência na Argentina.
A uva Malbec tem, naturalmente, uma grande suscetibilidade a sofrer com pragas, além de uma sensibilidade acentuada às alterações de clima. Por isso, precisa ser plantada em locais muito específicos a fim de prosperar.
Hoje, a Argentina investe fortemente na otimização da produção, por meios tecnológicos e com muita pesquisa científica que tem como principal objetivo a melhora do cultivo. Atualmente, o país lidera a produção dessa variedade, produzindo cerca de 75% de toda a quantidade de Malbecs no planeta.
Por que o vinho Malbec argentino é tão especial?
Você já ouviu falar sobre o conceito de terroir?
Esse é um termo sem tradução muito clara, mas que significa, em palavras simples, os fatores (sejam ele climáticos, biológicos, químicos ou físicos) de um determinado local que contribuem e interferem na produção de um vinho.
Esses fatores podem incluir o sol, a altitude, a geologia, o tipo de água, o PH do solo, os ventos, a declividade do terreno em que as uvas são plantadas, além de muitos outros pontos importantes. O conjunto dessas características são determinantes para a qualidade, o sabor e outras particularidades do vinho.
Por conta disso, uma mesma uva, quando plantada em pontos diferentes do globo, produz bebidas bastante distintas. Isso faz com que dois vinhos, ainda que compartilhem características, sejam completamente diferentes e únicos. Esse é, sem dúvidas, o caso do Malbec oriundo da Argentina.
Esses pontos o tornam diferentes dos vinhos Malbec produzidos em qualquer outro lugar do planeta. Essas características únicas fizeram com que a Argentina se tornasse uma referência na produção de vinhos de altíssima qualidade e, por isso, essa nação tem uma relação de reverência com essa uva em particular.
Para homenagear essa maravilha da natureza, a Argentina comemora, todos os dias 17 de abril, o Dia Mundial da Uva Malbec. Essa data tem uma grande importância para a população argentina, já que reverencia uma uva importantíssima para a economia do país, para a sobrevivência de diversas famílias argentinas e também para a cultura dessa nação.
Quais são os outros países em que a uva Malbec é cultivada?
Apesar de ter encontrado o seu lar ideal no território argentino, a uva Malbec ainda é cultivada em diversas outras partes do globo. Como sabemos, dependendo do clima e de outros fatores, o sabor do vinho produzido é completamente diferente. Portanto, precisamos abordar esses outros produtores para sabermos tudo sobre essa fruta e seus vinhos.
O clima é um dos fatores que mais interferem no sabor da uva Malbec. Em temperaturas mais baixas, as notas de cereja se acentuam bastante no sabor. Já em ambientes mais quentes, por exemplo, o gosto pode se assemelhar mais ao característico sabor dos mirtilos.
Além da França (que é o segundo país no ranking de produção dessa fruta), a uva Malbec é produzida em nações como: Chile (famoso lar das uvas Carménère), Estados Unidos (especialmente nas regiões de Washington, Oregon e Califórnia), Nova Zelândia (país com menor produção), Austrália, Canadá, África do Sul, Itália (ao norte) e Espanha (na região de Ribera del Duero).
Dentre esses, além da França, o Chile talvez seja o produtor mais marcante da uva. Nele o cultivo é bastante extenso e de qualidade, principalmente por conta das altitudes elevadas e do clima um tanto quanto semelhante ao visto na Argentina (embora relativamente mais frio).
Como podemos observar, várias nações ao redor do globo se dão particularmente bem na produção do vinho com uvas Malbec. Lugares remotos e frios, como o Canadá, e ambientes no extremo sul do planeta (como a África do Sul e a Austrália) conseguem, apesar de suas diferenças, produzir uvas de boa qualidade e rótulos de primeira classe.
Quais são as principais características do vinho Malbec?
Como acontece com todos os tipos de vinho, a região em que a uva é cultivada interfere fortemente no resultado final e no sabor da fruta colhida. Como vimos anteriormente, a mesma variedade de uva plantada em locais distantes entre si produz bebidas completamente únicas e diferentes entre si, com sabores, acidez e taninos diversos.
Por conta disso, é um tanto quanto difícil avaliar características que se apliquem a todos os vinhos feitos a partir da uva Malbec. Além do terroir de cada produção, outros fatores (como a maturação da bebida, sua fermentação e até mesmo o tempo de envelhecimento nas garrafas) influenciará fortemente no resultado.
No entanto, podemos ressaltar alguns pontos importantes e que facilitam na identificação dessa categoria. Por exemplo, o vinho Malbec sempre terá uma acidez média e taninos marcantes, ainda que essa expressão varie bastante de acordo com o local de plantio e o condicionamento da bebida ao longo do processo de fabricação.
Outra característica muito marcante é a sua coloração, sempre muito escura. Essa habilidade de produzir vinhos escuros é, inclusive, utilizada em blends para tornar a cor mais atraente e bonita. De modo geral, os vinhos Malbec têm uma coloração arroxeada forte e muito bela.
Além de características visuais, como é o caso da cor, podemos citar pontos cruciais no aroma e no sabor. Entre eles, temos as notas florais, que no caso dos vinhos Malbec têm uma relação muito forte com as características da violeta. Outros pontos incluem notas como o tabaco e a pimenta, além de sabores terrosos, não são incomuns.
No entanto, o fator mais marcante em seu sabor são as notas de frutas vermelhas, como as cerejas, amoras e mirtilos. Isso faz com que o vinho seja reconhecido em todo o planeta. Cada terroir produz resultados únicos, mas, no geral, é muito fácil reconhecer os vinhos Malbec por meio de seu sabor.
Em uma comparação genérica de estilo entre os malbecs argentinos e os franceses, podemos dizer que:
Frutas: os malbecs argentinos costumam ser exuberantes nos aromas de frutas, com muitas frutas negras (ameixas, amoras e cerejas na composição) bem maduras, as vezes lembrando geleias. Além desses, podemos identificar o gosto de chocolate e cacau.) Os do Cahors lembram mais frutas frescas, não tão maduras.
Flores: violeta é um dos aromas típicos do malbec argentino, menos evidente nos exemplares do Cahors.
Vegetais/ervas: tabaco é um aroma da malbec mais comum nos exemplares do Cahors.
Doçura: quase sempre os malbecs estarão na categoria “seco”, com poucos gramas de açúcar residual (1 a 5), é o mais comum no mercado, mas com sensação de maciez dada pelo álcool alto e acidez moderada, mais evidente nos exemplares sul americanos do que nos franceses.
Acidez: aqui está uma grande diferença do malbec argentino para o francês. O argentino geralmente tem acidez moderada e o francês mais alta.
Corpo: geralmente argentinos tem mais volume de boca que os do Cahors
Álcool: na Argentina raramente um malbec terá menos de 13,5% de álcool, podendo chegar aos 17%. Na França estes números são mais baixos, ficando geralmente entre 12% e 14%
O vinho Malbec argentino inclui os seus fortes taninos, bem mais maduros do que no equivalente francês, além de sua textura deliciosamente aveludada.
Como é feita a harmonização do vinho Malbec?
Agora que já sabemos quase tudo sobre esse vinho tão especial, que tal conferirmos as melhores maneiras de combiná-lo com pratos tipicamente brasileiros? Afinal, o nosso clima tropical não pode e nem deve nos impedir de degustar essa maravilha com alimentos que façam parte de nosso dia a dia e de nossa cultura gastronômica.
Em primeiro lugar, precisamos falar sobre o modo de servir o vinho. Por ser uma bebida de sabores e aromas bastante intensos e peculiares, não precisamos de taças largas ou muito fundas. As taças padrão são uma ótima opção para a degustação dessa bebida, que deve ser servido a uma temperatura de cerca de 20ºC.
Uma das melhores harmonizações para os vinhos Malbec é, sem dúvida, a carne vermelha. Bastante popular na gastronomia da Argentina, os churrascos e outros preparos com carnes bovinas (como a boa e velha costela) nasceram para ser pareados com essa bebida. Linguiças, como o chouriço, também caem muito bem e não devem ser evitados.
Já os queijos, outra verdadeira paixão do povo brasileiro, também podem ser combinados com esse vinho. Uma boa pedida é harmonizar o Malbec com queijos duros como o gouda ou com os altamente fermentados. No entanto, opções mais comumente consumidas também combinam bastante com esse vinho, que faz um belo contraste com a gordura do queijo.
Já as sobremesas, outra paixão natural, também podem ser consumidas pareadas com esse vinho. O ideal é que ele esteja um pouco abaixo dos 20 ºC, para não pesar no paladar. As combinações possíveis envolvem o amado chocolate, que combina muito bem com as notas próprias do vinho. Receitas à base de amêndoas também são sempre bem-vindas.
O que deve ser considerado ao escolher um vinho da uva Malbec?
Deve ser considerado na hora de escolher esse tipo de bebida a região de onde o vinho foi produzido. Afinal, como vimos, terroirs diferentes produzirão bebidas completamente diversas. Isso influenciará diretamente na experiência que você terá ao degustar o vinho, além de poder também influenciar na harmonização dos pratos.
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